tipo assim
encontrando
ainda de pantufas roxas
toalha displicente no pescoço
cabelos em alvoroço
meio zonza
procurando um copo
e a água mineral
tipo assim
ainda dentro de um sonho
no bocejo das horas
com o batom derretendo
se dissolvendo
tal qual amoras
enquanto o estojo de maquiagem
dorme coberto pelo espelho
Carlos Roberto Gutierrez
KAfé com KÁfuné
versos expressos instantâneos
sábado, 12 de julho de 2014
sexta-feira, 11 de julho de 2014
Devagar...Divagar
Devagar...devagar...
não tenho pressa
Divagar...divagar
é o que interessa
e me arremessa
para novas paisagens
sonhos inéditos
Não renuncio ao seu olhar penetrante
e me infiltro nesses deslumbrantes faróis
luz do seu semblante
há algo que me impulsiona aos seus olhos
que me faz refém
e ao mesmo tempo me liberta
suga como um poço
e expele como uma recente estrela
ah que maravilha
encontrá-la nessa trilha
puxar o meu labirinto
e achar um atalho
num olhar que concentra todos os mistérios da noite
Devagar...devagar...
hei de contemplar o seu olhar
Divagar...divagar....
tenho a noite inteira
a madrugada apegada em seus olhos
e quiçá um promissor despertar
não renuncio ao seu olhar
vejo agora a vida com outros olhos
Carlos Roberto Gutierrez
não tenho pressa
Divagar...divagar
é o que interessa
e me arremessa
para novas paisagens
sonhos inéditos
Não renuncio ao seu olhar penetrante
e me infiltro nesses deslumbrantes faróis
luz do seu semblante
há algo que me impulsiona aos seus olhos
que me faz refém
e ao mesmo tempo me liberta
suga como um poço
e expele como uma recente estrela
ah que maravilha
encontrá-la nessa trilha
puxar o meu labirinto
e achar um atalho
num olhar que concentra todos os mistérios da noite
Devagar...devagar...
hei de contemplar o seu olhar
Divagar...divagar....
tenho a noite inteira
a madrugada apegada em seus olhos
e quiçá um promissor despertar
não renuncio ao seu olhar
vejo agora a vida com outros olhos
Carlos Roberto Gutierrez
MAFALDA
http://www.revistadacultura.com.br/revistadacultura/detalhe/14-07-01/50_anos_com_corpinho_de_6.aspx
Ela é contestadora e reflexiva, odeia a injustiça, a guerra, as armas nucleares, o racismo, as convenções dos adultos e, claro, a sopa. Ama os Beatles, a democracia, os direitos das crianças, a paz. Surgiu em público pela primeira vez com 6 anos, em 29 de setembro de 1964. Tinha 8 quando ‘seu pai’, o desenhista argentino Quino, 82, decidiu parar de criar as histórias em quadrinhos nas quais era a protagonista. Mafalda, a menina revoltada que não se cansa de questionar o que vê de errado à sua volta, está completando 50 anos. Apesar disso, continua tão atual como na época em que veio ao mundo.
Tudo começou quando, em 1963, Quino foi convidado por uma agência de publicidade a fazer uma tira para a nova linha de eletrodomésticos da empresa Mansfield. Por solicitação da companhia, os nomes de todas as personagens deveriam começar com a letra “M”. A campanha publicitária não foi levada adiante, mas ele guardou os originais dos desenhos. Até que, em 1964, a revista semanal Primera Plana, de Buenos Aires, encomendou-lhe uma história em quadrinhos. Mafalda começou a ser publicada em setembro daquele ano.

Ao longo de quase dez anos (1964-1973), as histórias daquela menina irreverente, que vinha de uma família típica da classe média argentina, foram publicadas sucessivamente por três veículos da imprensa de nossos hermanos: Primera Plana, El Mundo e Siete Días Ilustrados. O sucesso foi estrondoso. Nos anos 1970, as histórias começaram a ser editadas em livros. “O primeiro deles vendeu 200 mil exemplares na Argentina”, conta à Revista da Cultura Daniel Divinsky, sócio-proprietário da Ediciones De la Flor, editora de Buenos Aires que publica Mafalda. O êxito editorial se espalhou para outros países e em pouco tempo a garota ganharia o mundo. As histórias da menina rebelde chegaram a circular até na Espanha franquista, mas tinham na capa a advertência ‘Para adultos’. Hoje, podem ser encontradas edições em nada menos que 26 idiomas. No entanto, curiosamente, a personagem que conquistou corações e mentes de adultos e crianças de países tão diferentes como o Brasil e a Indonésia não conseguiu ser aceita nos Estados Unidos. Segundo Divinsky, um editor norte-americano chegou a se interessar em publicá-la, mas depois concluiu que as histórias de Mafalda eram muito sofisticadas para as crianças norte-americanas e não considerou que elas também se dirigem aos adultos. “Então nos encarregamos de publicar uma edição em espanhol e inglês destinada às escolas de ensino bilíngue. As crianças adoram”, revela.
A passagem da revista semanal Primera Plana para o jornal El Mundo marcou a oportunidade de publicar as tiras em um veículo diário e de tratar de assuntos do momento. Apenas duas semanas depois de estrear no jornal, Quino percebeu que precisava de outros personagens para enriquecer as histórias, que até então se reduziam às figuras de Mafalda e seus pais, um típico casal de classe média acomodado, que precisava tomar o medicamento Nervocalm para suportar a rotina do cotidiano e a dificuldade de criar uma filha contestadora. Surgiram assim Felipe, um garoto de 7 anos, sonhador, tímido e desligado; Manolito, um menino de 6 anos, ambicioso e materialista, que odeia os hippies (entre os quais inclui os Beatles) e quer ter uma rede de supermercados; e Susanita, uma garotinha fofoqueira que almeja um casamento com um marido rico e muitos filhos.

Em 1970, já na revista semanal Siete Días Ilustrados, nasceram Guille, o irmãozinho da protagonista (inspirado em um sobrinho do autor), e Libertad, uma espécie de Mafalda em miniatura, crítica e perspicaz, que ama a cultura, as reivindicações sociais e as revoluções. Talvez para indicar a falta de liberdade, ou o quanto ela é ameaçada, Libertad é menor que os demais. Mafalda também ganhou um animal de estimação: uma tartaruga com o sugestivo nome de Burocracia.
DAQUI ATÉ A ETERNIDADE
Ao contrário de alguns desenhistas, que prolongaram a vida de seus quadrinhos com o apoio de uma equipe, Quino optou por não perder o contato direto com a própria criação. Quando se deu conta de que Mafalda poderia se tornar uma tira repetitiva, lida só por hábito, resolveu parar. A decisão foi habilmente comunicada nas vinhetas que acompanhavam as tiras. A fofoqueira Susanita encarregou-se de dar o recado mais enfático: “Não digam nada que fui eu que contei, mas parece que daqui a pouco tempo, por um preciso e exato lapso de ‘um tempinho’, os leitores que estão fartos da gente vão poder aproveitar a nossa desejada ausência”, sentenciou na vinheta de 18 de junho de 1973. Na semana seguinte, eram publicadas as últimas tiras. As únicas novas que surgiram posteriormente foram desenhadas para as campanhas a favor dos direitos das crianças, promovidas pelo Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) e pela Cruz Vermelha.

Apesar disso, Mafalda continua mais viva do que nunca e é celebrada em vários países, a começar pela Argentina, onde nasceu. O desenhista Miguel Rep, de Buenos Aires, conta que é fã incondicional de Quino e de sua “filha”. “Não existe humorista gráfico na Argentina depois de Quino que não receba a sua influência”, afirma. “Mafalda foi a única história em quadrinhos dele; trata-se da obra-prima de Quino, mas não podemos nos esquecer de que ele também fez muitos cartuns”, acrescenta. Autor de tiras publicadas regularmente no jornal portenho Pagina/12, Rep nota que o ‘pai’ de Mafalda é muito preocupado com a essência humana – o que se reflete nas histórias em quadrinhos da sua cria mais ilustre. Sua opinião é compartilhada pelo professor livre-docente da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo (FAU-USP), Sérgio Régis Martins. Autor da tese de doutorado A invenção do humor no espaço gráfico, o professor observa que não ser provinciano é importante para a produção e fruição das nuances do humor gráfico contemporâneo. Para ele, o sucesso da personagem mundo afora advém do seu caráter universalista.

Mas, para entender melhor o fenômeno Mafalda, convém conhecer um pouco mais sobre Joaquín Lavado Tejón, o verdadeiro nome de Quino, e saber como sua mente gerou uma personagem tão especial. Nascido na província de Mendoza, em 1932, o desenhista é filho de imigrantes espanhóis republicanos, ferrenhos antifranquistas e anticlericais, e neto de comunistas militantes – todos exilados na Argentina. Cresceu marcado pela tragédia imposta pela Guerra Civil espanhola (1936-1939) e pelo avanço do fascismo, o que lhe conferiu um sentido político para a vida – a marca de seu trabalho. Quino nunca dirigiu um carro: preferiu sempre caminhar para poder observar melhor o mundo ao seu redor. Começou a se interessar pela arte de desenhar com apenas 3 anos, quando seu tio, Joaquín Tejedor, desenhista publicitário, o presenteou com o desenho de um cavalinho azul. O tio foi seu modelo na infância e, quando se tornou adulto, resolveu tentar a sorte na capital argentina.

Quino sofre de glaucoma e já não desenha mais. Nos últimos tempos, tem aparecido menos em público, mas compareceu à homenagem que lhe fizeram em março deste ano no Salão do Livro de Paris, quando recebeu a Legião de Honra pelos 50 anos de Mafalda. Em maio, foi agraciado com o prêmio Príncipe das Astúrias de Comunicação e Humanidades, outorgado pelo governo espanhol. A exposição Quino por Mafalda, em homenagem aos 60 anos de atividade do desenhista e ao cinquentenário de sua mais célebre criação, foi inaugurada mês passado no Museu do Humor, em Buenos Aires, e prossegue até 31 de outubro. Além disso, Mafalda já invadiu o mundo digital, estando presente em aplicativos para tablets e smartphones, em formato para eBook, no Twitter, Instagram, e tem página oficial no Facebook, a qual soma mais de 3,5 milhões de seguidores. Vida longa a ela!
50 anos com corpinho de 6
Prestes a completar seu cinquentenário, a personagem Mafalda, criada pelo cartunista argentino Quino, conquistou fãs em todo o planeta, foi traduzida para mais de 25 idiomas e continua sempre contemporânea
por:
Adriana Marcolini /
01/07/2014
Fotos Reprodução / Manuel Zambrana / Corbis / Colita/ Corbis
Ela é contestadora e reflexiva, odeia a injustiça, a guerra, as armas nucleares, o racismo, as convenções dos adultos e, claro, a sopa. Ama os Beatles, a democracia, os direitos das crianças, a paz. Surgiu em público pela primeira vez com 6 anos, em 29 de setembro de 1964. Tinha 8 quando ‘seu pai’, o desenhista argentino Quino, 82, decidiu parar de criar as histórias em quadrinhos nas quais era a protagonista. Mafalda, a menina revoltada que não se cansa de questionar o que vê de errado à sua volta, está completando 50 anos. Apesar disso, continua tão atual como na época em que veio ao mundo.
Tudo começou quando, em 1963, Quino foi convidado por uma agência de publicidade a fazer uma tira para a nova linha de eletrodomésticos da empresa Mansfield. Por solicitação da companhia, os nomes de todas as personagens deveriam começar com a letra “M”. A campanha publicitária não foi levada adiante, mas ele guardou os originais dos desenhos. Até que, em 1964, a revista semanal Primera Plana, de Buenos Aires, encomendou-lhe uma história em quadrinhos. Mafalda começou a ser publicada em setembro daquele ano.
Ao longo de quase dez anos (1964-1973), as histórias daquela menina irreverente, que vinha de uma família típica da classe média argentina, foram publicadas sucessivamente por três veículos da imprensa de nossos hermanos: Primera Plana, El Mundo e Siete Días Ilustrados. O sucesso foi estrondoso. Nos anos 1970, as histórias começaram a ser editadas em livros. “O primeiro deles vendeu 200 mil exemplares na Argentina”, conta à Revista da Cultura Daniel Divinsky, sócio-proprietário da Ediciones De la Flor, editora de Buenos Aires que publica Mafalda. O êxito editorial se espalhou para outros países e em pouco tempo a garota ganharia o mundo. As histórias da menina rebelde chegaram a circular até na Espanha franquista, mas tinham na capa a advertência ‘Para adultos’. Hoje, podem ser encontradas edições em nada menos que 26 idiomas. No entanto, curiosamente, a personagem que conquistou corações e mentes de adultos e crianças de países tão diferentes como o Brasil e a Indonésia não conseguiu ser aceita nos Estados Unidos. Segundo Divinsky, um editor norte-americano chegou a se interessar em publicá-la, mas depois concluiu que as histórias de Mafalda eram muito sofisticadas para as crianças norte-americanas e não considerou que elas também se dirigem aos adultos. “Então nos encarregamos de publicar uma edição em espanhol e inglês destinada às escolas de ensino bilíngue. As crianças adoram”, revela.
A passagem da revista semanal Primera Plana para o jornal El Mundo marcou a oportunidade de publicar as tiras em um veículo diário e de tratar de assuntos do momento. Apenas duas semanas depois de estrear no jornal, Quino percebeu que precisava de outros personagens para enriquecer as histórias, que até então se reduziam às figuras de Mafalda e seus pais, um típico casal de classe média acomodado, que precisava tomar o medicamento Nervocalm para suportar a rotina do cotidiano e a dificuldade de criar uma filha contestadora. Surgiram assim Felipe, um garoto de 7 anos, sonhador, tímido e desligado; Manolito, um menino de 6 anos, ambicioso e materialista, que odeia os hippies (entre os quais inclui os Beatles) e quer ter uma rede de supermercados; e Susanita, uma garotinha fofoqueira que almeja um casamento com um marido rico e muitos filhos.
Em 1970, já na revista semanal Siete Días Ilustrados, nasceram Guille, o irmãozinho da protagonista (inspirado em um sobrinho do autor), e Libertad, uma espécie de Mafalda em miniatura, crítica e perspicaz, que ama a cultura, as reivindicações sociais e as revoluções. Talvez para indicar a falta de liberdade, ou o quanto ela é ameaçada, Libertad é menor que os demais. Mafalda também ganhou um animal de estimação: uma tartaruga com o sugestivo nome de Burocracia.
DAQUI ATÉ A ETERNIDADE
Ao contrário de alguns desenhistas, que prolongaram a vida de seus quadrinhos com o apoio de uma equipe, Quino optou por não perder o contato direto com a própria criação. Quando se deu conta de que Mafalda poderia se tornar uma tira repetitiva, lida só por hábito, resolveu parar. A decisão foi habilmente comunicada nas vinhetas que acompanhavam as tiras. A fofoqueira Susanita encarregou-se de dar o recado mais enfático: “Não digam nada que fui eu que contei, mas parece que daqui a pouco tempo, por um preciso e exato lapso de ‘um tempinho’, os leitores que estão fartos da gente vão poder aproveitar a nossa desejada ausência”, sentenciou na vinheta de 18 de junho de 1973. Na semana seguinte, eram publicadas as últimas tiras. As únicas novas que surgiram posteriormente foram desenhadas para as campanhas a favor dos direitos das crianças, promovidas pelo Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) e pela Cruz Vermelha.
Apesar disso, Mafalda continua mais viva do que nunca e é celebrada em vários países, a começar pela Argentina, onde nasceu. O desenhista Miguel Rep, de Buenos Aires, conta que é fã incondicional de Quino e de sua “filha”. “Não existe humorista gráfico na Argentina depois de Quino que não receba a sua influência”, afirma. “Mafalda foi a única história em quadrinhos dele; trata-se da obra-prima de Quino, mas não podemos nos esquecer de que ele também fez muitos cartuns”, acrescenta. Autor de tiras publicadas regularmente no jornal portenho Pagina/12, Rep nota que o ‘pai’ de Mafalda é muito preocupado com a essência humana – o que se reflete nas histórias em quadrinhos da sua cria mais ilustre. Sua opinião é compartilhada pelo professor livre-docente da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo (FAU-USP), Sérgio Régis Martins. Autor da tese de doutorado A invenção do humor no espaço gráfico, o professor observa que não ser provinciano é importante para a produção e fruição das nuances do humor gráfico contemporâneo. Para ele, o sucesso da personagem mundo afora advém do seu caráter universalista.
Mas, para entender melhor o fenômeno Mafalda, convém conhecer um pouco mais sobre Joaquín Lavado Tejón, o verdadeiro nome de Quino, e saber como sua mente gerou uma personagem tão especial. Nascido na província de Mendoza, em 1932, o desenhista é filho de imigrantes espanhóis republicanos, ferrenhos antifranquistas e anticlericais, e neto de comunistas militantes – todos exilados na Argentina. Cresceu marcado pela tragédia imposta pela Guerra Civil espanhola (1936-1939) e pelo avanço do fascismo, o que lhe conferiu um sentido político para a vida – a marca de seu trabalho. Quino nunca dirigiu um carro: preferiu sempre caminhar para poder observar melhor o mundo ao seu redor. Começou a se interessar pela arte de desenhar com apenas 3 anos, quando seu tio, Joaquín Tejedor, desenhista publicitário, o presenteou com o desenho de um cavalinho azul. O tio foi seu modelo na infância e, quando se tornou adulto, resolveu tentar a sorte na capital argentina.
Quino sofre de glaucoma e já não desenha mais. Nos últimos tempos, tem aparecido menos em público, mas compareceu à homenagem que lhe fizeram em março deste ano no Salão do Livro de Paris, quando recebeu a Legião de Honra pelos 50 anos de Mafalda. Em maio, foi agraciado com o prêmio Príncipe das Astúrias de Comunicação e Humanidades, outorgado pelo governo espanhol. A exposição Quino por Mafalda, em homenagem aos 60 anos de atividade do desenhista e ao cinquentenário de sua mais célebre criação, foi inaugurada mês passado no Museu do Humor, em Buenos Aires, e prossegue até 31 de outubro. Além disso, Mafalda já invadiu o mundo digital, estando presente em aplicativos para tablets e smartphones, em formato para eBook, no Twitter, Instagram, e tem página oficial no Facebook, a qual soma mais de 3,5 milhões de seguidores. Vida longa a ela!
quinta-feira, 10 de julho de 2014
O Pássaro Azul
O poema de Charles Bukowski, O Pássaro
Azul, originalmente publicado na sua antologia de 1992 The Last Night of
the Earth Poems, é uma meditação sutilmente profunda sobre uma faceta
da condição humana que conhecemos muito bem. A compulsão, os vícios, o
resultado de uma solidão que corrói diariamente, é a isso tudo que
Bukowski consegue se referir – ou melhor, trazer à tona – com o seu
poema.
O pássaro azul se mostra como a pureza
que buscamos preservar na gaiola, proteger um dos sentimentos mais
nobres diante de um mundo corrompido. Essa beleza pura, talvez o ímpeto
que move o escritor a criar, pede para se mostrar, mas não é revelado
pelo poeta, o qual se encontra à mercê das ofertas ambíguas do mundo. Na
hora em que se deita e está sozinho, é na companhia desse pássaro
guardado em si mesmo, que o poeta parece se recompor. Pelo menos um
pouco, para suportar a dor e o desespero que existe sempre no dia
seguinte.
A bela animação adapta o poema de
Bukowski e foi criada por Monika Umba, estudante de Cambrigde School of
Art. Com uma perfeição visual muito bem desenvolvida pela artista, a
trilha de poucas notas dá o toque melancólico que soa na leitura. Os
personagens possuem um corpo meio rígido, parecem feitos de recortes de
jornal. Por isso, tem algo de cotidiano neles. O pássaro e o azul, os
grandes protagonistas da animação, dão o tom aos eventos e brilham pela
imagem, trazendo à vida a magia do poema.
Abaixo você pode conferir o poema de Bukowski e a animação:
O pássaro azulhá um pássaro azul em meu peito que
quer sair
mas sou duro demais com ele,
eu digo, fique aí, não deixarei
que ninguém o veja.
há um pássaro azul em meu peito que
quer sair
mas eu despejo uísque sobre ele e inalo
fumaça de cigarro
e as putas e os atendentes dos bares
e das mercearias
nunca saberão que
ele está
lá dentro.
há um pássaro azul em meu peito que
quer sair
mas sou duro demais com ele,
eu digo,
fique aí, quer acabar
comigo?
quer foder com minha
escrita?
quer arruinar a venda dos meus livros na
Europa?
há um pássaro azul em meu peito que
quer sair
mas sou bastante esperto, deixo que ele saia
somente em algumas noites
quando todos estão dormindo.
eu digo, sei que você está aí,
então não fique
triste.
depois o coloco de volta em seu lugar,
mas ele ainda canta um pouquinho
lá dentro, não deixo que morra
completamente
e nós dormimos juntos
assim
com nosso pacto secreto
e isto é bom o suficiente para
fazer um homem
chorar, mas eu não
choro, e
você?
in Textos autobiográficos, de Charles Bukowski, páginas 478/9. Tradução de Pedro Gonzaga. Porto Alegre, L&PM Editores, 2009.
https://www.youtube.com/watch?v=jsc3ItAKSLc
Cigarro de Cravo
- Vou procurar um cigarro de cravo
- então ela procurou um cigarro de cravo
para refrescar o hálito
e pulverizar a flor do ambiente
no jardim interno do seu quarto
procurou um novo gosto de viver
trocou o seu rosto
e me concedeu um sorriso
sem prévio aviso
assim do nada
ou melhor de uma espiral de fumaça
que escapou da nuvem de uma tragada
um aroma de cravo
que gravo
na memória do meu olfato
ideia central
Kaká Lopes
- então ela procurou um cigarro de cravo
para refrescar o hálito
e pulverizar a flor do ambiente
no jardim interno do seu quarto
procurou um novo gosto de viver
trocou o seu rosto
e me concedeu um sorriso
sem prévio aviso
assim do nada
ou melhor de uma espiral de fumaça
que escapou da nuvem de uma tragada
um aroma de cravo
que gravo
na memória do meu olfato
ideia central
Kaká Lopes
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